Mundo virtual abre opções a pessoas com deficiência

Já se passaram 13 anos desde que, durante uma viagem de férias com a família pela Europa, o mogiano Cid Torquato Júnior foi convidado pelas Organizações das Nações Unidas (ONU) para uma palestra na região da Croácia. Advogado formado pela Universidade de São Paulo, Cid é dono de um currículo invejável, como executivo da StarMedia Networks e da Lowe & Partners América Latina. Já foi assessor de Governo Eletrônico na administração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, além de fundador da Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico, entidade que reúne as principais empresas industriais e comerciais do País. Após a palestra, num momento de lazer, um mergulho mal planejado de um píer para o Mar Adriático provocou-lhe fratura cervical e tetraplegia, com a qual convive, desde setembro de 2007, com apoio de uma cadeira de rodas. Após atuar junto ao Governo do Estado de São Paulo, durante a administração de Geraldo Alckmin, no apoio aos deficientes físicos, Cid Torquato, 57 anos, é o atual secretário municipal da Pessoa com Deficiência da Prefeitura de São Paulo e mostra, em entrevista a O Diário, como está convivendo com a pandemia da Covid-19 e de que forma sua pasta está atuando neste momento difícil para todos. Eis a entrevista:

Como você está enfrentando o isolamento e a pandemia?

Muito triste este momento para a humanidade. Ainda não temos a dimensão do estrago que esse vírus imprimirá na economia e no convívio social. Ao mesmo tempo, abrem-se muitas janelas de oportunidades e mudanças positivas. Temos que estar atentos sobre esses dois vieses para mitigar o impacto negativo desta crise. Neste cenário, estou me protegendo, tomando todas as medidas preventivas, mas, também, trabalhando muito em prol das pessoas com deficiência mais carentes da cidade de São Paulo. Apesar dessa pandemia toda, tenho aproveitado para me reconectar com muita gente que não via há tempos. Tenho renovado contatos e têm surgido novas ideias para projetos na Prefeitura e fora. Dizem que as crises também trazem oportunidades. Estou tentando buscá-las, tanto para mim como para as pessoas com deficiência em geral. Venho defendendo publicamente, nas lives em que participo, que a crescente virtualização de processos representa uma grande janela de oportunidades para profissionais com deficiência, que podem protagonizar seus talentos sem sair de casa e, consequentemente, evitando o preconceito ainda muito presente nas relações presenciais. Na frente do computador, todo mundo é igual, minimizando o estranhamento e a ignorância sofrida por pessoas com deficiência no convívio social. Sei que o ideal seria todo mundo junto e misturado, em pé de igualdade. Mas ainda não alcançamos este estágio civilizatório ideal e o teletrabalho representa uma tremenda oportunidade neste período de grandes mudanças comportamentais.

Neste momento, quais são as maiores dificuldades das pessoas com deficiência e como enfrentá-las?

No quadro atual, o maior desafio para as pessoas com deficiência é não se contaminar. Em sua maioria, representam grupo de risco, com grande possibilidade de complicações respiratórias graves. Temos notícias de muitas mortes de pessoas com deficiência em residências inclusivas, clínicas e casas de abrigamento na Europa e Estados Unidos. Outro ponto é, se infectado, garantir atendimento digno, já que temos muitos relatos de pessoas com deficiência sendo preteridas e não recebendo cuidados mais complexos ou, mesmo, acesso a respiradores, o que é gravíssimo. No geral, tenho defendido que é o momento de reforçarmos o movimento político das pessoas com deficiência, pois, com certeza, enfrentaremos ataques a direitos duramente conquistados ao longo das últimas décadas. Como sabemos, nesses momentos de perdas econômicas, quem mais precisa é quem mais perde. Não podemos deixar que isso aconteça.

Você tem trabalhado? Qual sua rotina?

A maior parte dos colaboradores da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência, da qual sou o secretário, está atuando em home office e teletrabalho. Uma pequena equipe e eu temos ido todos os dias à nossa sede, principalmente para mantermos a interlocução com as demais secretarias e com o valente prefeito Bruno Covas, que está morando na Prefeitura.

Que ações a Prefeitura e a SMPED têm conduzido em prol das pessoas com deficiência em SP?

As ações sociais, transversais, da Prefeitura estão concentradas no programa Cidade Solidária, que canaliza doações à população mais vulnerável. Paralelamente, criamos um Centro de Acolhimento Emergencial para pessoas com deficiência em situação de rua, estamos monitorando cerca de 60 entidades e centenas de famílias carentes com entes com deficiência, às quais provemos cestas básicas, kits de higiene, máscaras e luvas. Outra importante ação é a transmissão de informações específicas para cada tipo de deficiência, sempre com recursos de acessibilidade digital e comunicacional.

Como vê o futuro, a flexibilização do isolamento e as perspectivas para o segmento das pessoas com deficiência?

Tenho lido tudo que aparece sobre esta catástrofe que nos assola, mas não consigo fazer previsões. Na verdade, as ameaças à saúde e aos direitos das pessoas com deficiência são potencialmente tão graves que nossa energia está toda concentrada em minimizar esses riscos e garantir um mínimo de dignidade aos que mais precisam. Temos relatos de índices muito altos de mortes de pessoas com deficiência na Europa e Estados Unidos. Não podemos deixar o mesmo acontecer em São Paulo.

Você traçaria um paralelo entre as medidas tomadas em São Paulo e as defendidas pela área federal do governo?

São Paulo tem sido um exemplo em termos de condução da crise, tanto no Capital como Estado, sobre o firme comando do governador João Doria. Contudo, muito difícil promover o isolamento com tanto desgoverno e irresponsabilidade criminosa no plano federal. Os impactos negativos poderiam ter sido muito menores, preservando muitas vidas, se a coordenação nacional fosse técnica e não politiqueira. Uma verdadeira vergonha, que ficará, com certeza, marcada em nossa história.

Que cuidados você tem tomado em relação à sua mãe e outros familiares que ficaram em Mogi?

Minha mãe, dona Neyde Torquato, com mais de 80 anos, está em total isolamento com minha irmã Renata. Estão trancadas há meses sem contato com ninguém, a não ser por videoconferência. Minhas irmãs, cunhados e sobrinhos também estão se cuidando, isolados, aprendendo rapidamente sobre tele-trabalho e ensino à distância.

Tem acompanhado o trabalho de Mogi durante a pandemia. O que tem achado?

Falo sempre com meu grande amigo Juliano Abe, vice-prefeito de Mogi. Entendo que foram tomadas as medidas possíveis, mesmo com a falta de recursos e de apoio do Governo Federal. Boa parte dos municípios, quebrados, não têm disponibilidade de orçamento para enfrentar esta catástrofe sanitária. Considero Mogi um exemplo muito positivo de trabalho.

Vamos ter eleições municipais neste ano. Quando você virá como candidato a prefeito ou vereador de Mogi?

Gostaria muito de contribuir com a gestão pública em Mogi das Cruzes. Seria muito interessante poder aplicar tudo o que aprendi no Estado e na Prefeitura de São Paulo na cidade onde nasci e ainda tenho familiares e grandes amigos. Quem sabe, o próximo prefeito, eleito ou reeleito, não me convida para assumir uma secretaria municipal!

O que deverá mudar na vida de todos nós ao fim da pandemia (se é que ela vai chegar ao fim…). O que a pandemia já mudou e o que deverá ficar, quando ela acabar?

Estamos todos na torcida e expectativa por uma vacina ou cura contra esse maldito vírus. Se vierem, voltaremos à vida normal. Do contrário, teremos que estar sempre super protegidos, com protocolos rígidos de higienização e desinfecção. Será o fim dos eventos, festas, shows, teatro, cinema, bares e restaurantes, entre outros, como hoje nós conhecemos. Em qualquer desses cenários, começando desde já, sentiremos o impacto da transformação digital, que tem acelerado processos tecnológicos em todos os setores da sociedade, sendo as videochamadas, videoconferências e lives a ponta mais visível desse iceberg de mudanças.

 

FONTE:
O DIÁRIO